Um paraíso negro de chamas marítimas colocadas, estrategicamente, em retratos mortos de natureza com letra minúscula. Gostar de negro ao invés do claro e drogado de benefícios vitais à salvação de uma mente desgastada e sem a preocupação com a paranóia mensal que evita a execução do acto carnal.
Vestes femininas compostas de folhagens secas e quentes, provindas de um Verão indiano. São filhos de Adão mas, erradamente, permanecerem orfãos de Eva e seus seios catolicamente e ordinariamente provocadores. Anticristianismo mais que evidente pelas nojentas ideologias e roubos de almas passadas que os papados cometeram.
Noites de folia sem euforia porque os espermatozóides não chegaram a ver a luz. Sonos trocados além de confusão de espírito e deficiência mental. Evocam poderes sobrenaturais inexistentes e esfregam-se na esquina arredondada de um bordel barato. Beleza sexual agitada entre correntes de um lago na qual a jóia fresca permanece.
Três de dois, que nunca chegaram a ser quatro, e se arruinaram numa qualquer noite enfatizada por dois copos e meio de vinho negro, levando à loucura os seus intermediários esquizofrénicos e as suas patéticas lamúrias de Invernos perdidas sem amor, sopas ou carinho. Dariam dados de sete números, ou contas com propriedades comutativas, numa probabilidade quase nula, de se envolverem num antro de sexualidade amistosa, fitando neutralizações de poder, estados de ansiedade nocturna e renda branca do casaco da velha. Viram-nos lá, de longe, envoltos em ventos opacos de tons amarelados, como quem pressagia a fome ou a vontade de comer. Formalizaram o pedido com cinco paus na mão e dois pombos a voar, pagando com trabalhos manuais e ofícios que possibilitam uma múltipla hemorragia vaginal. E deixaram impressões digitais nas areias que nunca tocaram, naquelas que queimavam antes do acto de querer e permanecem num quarto pensando em sexo e em passados ultrapassados. Perderam o balanço em cordas suspensas e nunca encontraram equilíbrio causal para as suas atitudes. Roubam inocências e almas tal como corpos desafortunados que dançam juntos num bailado clássico e frenético, como duas aves loucas contornando ruas de uma vila antiga, numa qualquer planície de um país comunista de regime. Com partilhas de amor, num abrir e fechar de pernas, trocando posições molhadas e toques húmidos com fluidos sagrados e suor humano, tal como o incessante e último acto prazeiroso de dois canibais, que deixam a cama para troca de parceiro, como que numa fuga instantânea à chuva que queima, deixando cicatrizes sentimentais com elevada acidez.
i’m midas. everything i touch, turns out to gold.
love is just an addiction of gold.
Corália era um homem. De cabelo grisalho, mas de barba inexistente, tinha o rosto cansado pela imunda vida de prostituição que vivera por mais de vinte anos. Aquando da sua nascença, a sua aldeia ajoelhou-se à porta velha e verde da casa de seus pais, jurando e apelando para que este fosse o Messias que traria àquela terra um novo brilho. E Corália sempre teve um diferente olhar. Focada nas matérias masculinas, como a nobre lavoura ou a refinada pecuária e desatenta do suposto correcto que a dificultosa família lhe incutia, como fêmea do humano.
Teria uma alma poética, com um talento indescritível para a rima e uma extensa noção de métrica greco-latina. Costumava olhar o seu reflexo no rio oriundo da nascente de água que se iniciava no monte que limitava a sua aldeia à direita. Era uma pura amante da chuva e do tempo negro, sempre fascinada pelo drama dos românticos do século dezanove. Amava a morte mais do que a si e idolatrava a ressurreição como tragédia bondosa de um Deus criador. Era primária intelectualmente, mas possuía um corpo secundariamente andrógino.
Na data da conclusão do seu vigésimo primeiro aniversário, seus pais ofereceram-na em casamento a um fazendeiro rico, para solução dos seus graves problemas financeiros. De nome Valério, era um jovem alto, com vinte e dois anos de idade, entroncado e de olhos negros como a morte que o avistava num futuro próximo.
Casaram-se, de verdade. E Corália era ainda sexualmente inutilizada, ao invés de seu marido, já bastante profissional na arte. Na noite após o casamento, chegava a data de Corália quebrar o elo de pureza que a ligava a uma vida espiritual, trazendo-o para o carnal da Terra. E nesse momento, Corália soube o que sempre a diferenciara. O recente marido expulsou-a de casa e em praça pública, Corália foi humilhada.
Sem uma porta aberta, por um erro de conjugação orgânica, Corália viu-se forçada a viver de uma abertura de pernas constante, à qual não satisfazia por completo os clientes que se dela se aproximavam. Por vezes espancada, por outras não paga e maltratada. Quarenta e cinco anos feitos e as formas masculinas eram bastante mais notórias no seu corpo, embora escondido por uma máscara feminina. E o seu corpo encontrava-se desgastado. E o seu corpo encontrava-se doente.
Morreu assim, vítima de uma hepatite ou de outra doença que algum cliente lhe tenha transmitido. A sua história parece não ter tido repetição. Mas, na verdade, muitos são aqueles que ainda ouvem Corália gritando como naquela noite, implorando por misericórdia ao estúpido marido. Todas as noites a ouvem, sempre esperando que ela não regresse.
Mesmo quando a escuridão chega, podes sempre ligar as luzes.
Humanamente, ele ainda ladra. Gritos presos na caixa enxaguam a face rodeada de negro. O seu sapato vermelho-escarlate é de jovial beldade, de rica armação picada e transtornada. Proponho-me a ser irrevogável. Tentarei ser a água tornada vinho e a ressurreição do gato sacrificado. Era preto, de verdade, e tinha passado a escada que desci. Coitado do presságio, os seus fluidos eram de cheiro extremamente peculiar mas agradável, devido à liberdade que induziam. Morreu, é certo. E o meu corpo esvoaça pelo céu, violado por espíritos e estrelas cor de ouro, queimando-se ao Sol, renascendo com o Quarto Crescente. Ciúmes do que te contempla e que te mente porque a mentira faz bem à alma e ao sangue. A noite é mãe do escravo, mãe do vício e do mendigo da estrada, mãe daquele que ardeu na fogueira pelos seus actos de bruxaria negra. A paixão pela imagem do amor é muito maior que o amor por si mesmo. O coração é apenas um músculo e o sexo o desgaste da energia vital. Porque juntos chegam ao cume e juntos sorriem como um só, atingem a perfeição através da brincadeira sexual, porque a verdade é o adorno do corpo, é o amor falso que os rodeia. Risos ténues em salas magmáticas e ecos quebrados. A festa nunca seria a mesma sem a tua dança frenética e erótica, sem a tua sedução a que se ajoelha o atraído pela tua falta de beleza. O alcoól já te corre nas veias. O amor nunca baterá no coração, mas esta noite brincarás. Brincarás de falso amor, trabalharás para o sexo quente e húmido, suarás vinho e rezarás no final.
Cheira a maresia e a gente mal lavada. Roubam provas de crimes marítimos e homicídios em ciclos de amor. Valorizam a pólvora e os bloqueios da mente e do sonho. Acidificam a carne e o terreno e esquecem o espiritualmente virtual. Dicotomias falsas: amor e ódio. Quebras plenas, quedas estupendas, gente hipócrita! Cortem-me aos pedaços e vendam-me por duas moedas e meia, serei nu de pele, serei sangue, serei sacrifício. Loucura por ternura, trocas e traição, sinceridade e pele de tigre, dentes e baba castanha. Excrementos daqueles que outrora não divagaram na sua felicidade. Filhos do tudo, filhos do nada, filhos da urbana constituição de campo. Chicotes e abusos de poder numa hierarquia horizontal de direitos. Porque a idade não conta. Respeitarei o outro tal como a Deus. Mas como Deus é criação do homem, também o outro é filho do excremento mental humano. Desrespeitarei o teu ilustre peito altivo e insconstante no sentimento. Mas há aquele que é fidedigno da sua terra, equiparando-se à cinza azul e ao fogo frio. Porque não queima, apenas na testa e na língua doente e sexualmente oralizada. Máquinas que abrem, ossos ligados por fios eléctricos. Jovens ordinários, banais e gloriosos por pensarem sem a cabeça suportada pelo pescoço longo e fino que deveria ligá-los ao peito altivo, conectando-se com um coração que deveria sentir e não denunciar, deveria enaltecer e não defecar palavras. Ritualizam-se com o bom do que é mau e riem-se do pobre espasmo emocional que não têm. Tornam-se pão, tornam-se vinho, tornam-se comunhão de factos e têm filhos. Pobres ridículos que não sabem o que difere o tempo do espaço, mas sabem que sexo é sexo. São malditos, demónios de gerações num tempo de passagem para uma era que deveria ser ouro.
Carne espiritual e mente física. Expectativas divergentes, emoções duradouras, laços em teia. Porque humano não é sangue, humano é nativo do pensamento. Homem é sentimento, homem é teia. Questão de imaturidade plena do suporte capilar.
O Homem nasceu criança, o seu corpo desenvolveu-se. A sua mente continua vista infantil, complexa, desconhecida embora conhecida. Humanizou-se o ambiente e interiorizou-se a influência. O Homem é hoje um Sol.
E o mar bate nos seus pés, porque o físico afecta o psicológico. E o frio da dor é recalcado, a infância é ultrapassada e a intimidade é uma variante do próximo. Cultura incutida desde infantes prolongando-se para o reinado da mente.
Humanos nas relações, humanos na descoberta do nosso eu, humanos na sociedade, humanos na vida. Humanos, de mente e corpo.
Por vezes vi o metafísico como o fundamento da vida.